sábado, 7 de março de 2015

Não me lembro de uma vez que devo ter tocado teu rosto com meus lábios.


Discos, canções e poemas velhos
não me lembro de uma vez que devo ter tocado teu rosto
com meus lábios.

A casa, o cachorro, a melodia menor
o timbre cálido, a vela, a chuva, a tempestade
chove no nordeste e essa solidão me faz corar
lilás

O rádio na madrugada, eu sempre esperava
Life House e Go Go Dolls.
Escrevendo versos, fumando cigarros, olhando
as aranhas nas plantas, sabendo que chegaria
atrasado no colégio
meu velho caderno
meu velho coração ambulante.

cheiro de corda quebrada
cancioneiros rasgados, aquelas palavras
entrecortadas, aqueles diálogos de horas
aqueles engasgos de chumbo
quando eu te encontrava
quando eu estava ao teu lado...
não me lembro de uma vez que devo ter tocado teu rosto
com meus lábios.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Um objeto null


Parece que aquele pesadelo, onde teus cabelos, lisos, como chumbo
sufocaram-me todo o dia, renderam-me boas considerações
ao fato de eu ter te dito, para ir embora.

Por que meu egoismo em relação ao teu corpo
E as tuas palavras [muito mais os silêncios deitada ao meu lado]
Caíram dos meus olhos como sombras prematuras.

Por que eu queria, ouvir dos teus olhos.
Eu queria te ver perder essa compostura
de achar essa conveniência entre nossas ausências
uma flor infrutífera, um tempo desbotado.

Eu sempre tive que ir em frente
E me acostumar com os boatos de tuas alegrias nos carnavais.





segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

A tua vaidade.



Corpo é carne
lascívia, vaidade, vestimenta
O espelho rachando essa representação
deformada. Escorre caráter por todo o chão.

Vejo lágrimas pelos teus poros
e meu abraço pesado te afunda na imagem esquecida
de tua infância
Éramos tudo isso
os outros, as referências, o que diziam, e o que calavam.

Mas as tuas mãos e teus olhos
Nada mentiam
Por que me afogavam
Nesta solidão encapsulada em ti.




Deuses e foices.



Meus olhos escorrem a serragem
dos anseios de deuses ciumentos
como orações de criança
iluminado em um estado de desespero e alegria
eu coloco todas as minhas conchas
no teu terço de mistérios e sangrias.

Flores para os profetas
pólvora para os mártires inaudíveis!
falar é pesado, ter convicções é perigoso!
tão distante e posto nas nossas mesas
só vejo esse ressentimento de brisa salgada
sem árvores, só prédios, entre o café e
páginas de colunas frescas 
visto as existências podres do jornal.
não tenho comoções ou convicções
   [pois as idéias e reflexões ao meu redor, assemelham-se a moscas]

por quê tudo é demais e sem consolos
ou tudo é impossível como represar a decomposição e a fúria.


[Ao som de Tycho - Awake]

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Flux

Noite em tormenta
Noctívago a carregar entre os dedos
Areia de um túmulo de prazer e asfixia

Gritos e sussurros
O olhar de meu pai caindo
O ódio de minha mulher
O desespero de minha mãe
A vergonha de todos
E eu a fazer malabares com lâmpadas no sinal.

carros, arredores de amores e busca cíclica
aquele rosto branco
aquela tua boca pequena
Eu de duzentos anos te pedindo sal
Te amo
E digito seu nome no google há muitos anos.

Olhar para os olhos dela
Enche-me de sorriso e paz
Mas não há sequer um dia
Que eu sonhe em ir embora
Para ir beber cerveja na praia.





segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Dezembro

Estou do averso com a solitude
intrigado com aquela paixão recôndita
e perdi o apresso como quem esquece a fala
sim, perdi! Ao acaso proposital de encher-me com as besteiras.

Por que li alguns poetas chatos!
Por que escutei algumas músicas chatas!
Por que fiquei ofendido com arte pretensiosa e burra.

Estou dando tchau para toda a melancolia
por que a criação, as palavras, todo o forró das coisas
cheiram-me a belas pernas, seios de nuvem desconhecida
O saisons, ô châteaux!”
Sou todo para as estações e pra frente como um dardo
Quero toda a possibilidade de dar chutes e afagos
como quem esperou uma chuva que nunca veio.


Oração I


Por que eu estava morto
E não respirar e sonhar do averso
sentir o húmus e as raízes nos olhos
trouxe-me a exatidão do sonho

vez ou outra sorria no inóspito
alimentava larvas e centelhas
na ilusão de eu mesmo ser estrela
sendo o tolo do sacrifício inglório.

E todo o adágio que era esperar uma vela ou pranto
cansou-me gravar os dias no teto da sepultura
roguei a luz na escuridão e vi mil arcanjos.