terça-feira, 17 de maio de 2011

Correntes.


Enquanto caminho
atado a tua face, cinza crucificada
no meu peito fuzilado
intrincado de cacos de cinzas
Pela cercania que é teu olhar, oh doçura!
De correr pelos os montes atado a certeza
de que só terei eu esperando por minhas
próprias saudades tristes e tranqüilas!
Dar-me ao fardo com os sonhos alheios...
Não tenho tanto assim para ser um anacoreta.
Eu não vou me crucificar (falo sério, de ombros tortos)
nem vou ficar acorrentado
[mil vezes acorrentado]
no eco onde tuas palavras são secas e sem flores.


Thymochenko Cabral

terça-feira, 20 de outubro de 2009

A aparição mais terna que inventei


[quadro de Paul Gauguin]

A aparição mais terna que inventei
Foi uma trova antiga
Estes teus olhos de morna alquimia
Renasce em minha casa de Rei.

Fui para o brejo com tudo, com as canções,
Elegias, papyros e adornos de nácar e ouro:
E com todas as sensações que “poderiam ter sido”.

E enfadado de Rio, Rei e amorosa Lua
Matei meus súditos e minha lei
Para viver afastado da memória e das trovas
E da aparição mais terna que inventei.

Todos se divertem



E todo o silêncio da modernidade
Incomoda minha casa
E minha poesia impura e calculada
Veste a ferrugem de um coágulo
Recompondo a ânsia
E a solidão.

Todos se divertem
E eu estou aqui estudando miolos
Todos se apaixonam
E eu estou envelhecendo com o amor
Todos festejam o que quer que seja
E pelas paredes velhas do que sou
Tenho um ser malogrado e sem centelha.

estou desqualificado
Para compor a mesa. Dê-me um cigarro,
Não fumo... Corte o copo ao meio
Tenho doenças por bebida... quero comer
Saudades postas... sei que o teu rosto não é
o de outrora, nem o meu.
Mas tenho algo, formidável e puro
Para escalar estrelas...

Luzes no vagão solitário


[quadro de Hans Hartung]

Luzes no vagão solitário
Dor da noite, parto de lágrimas...
Minha comoção é um couro sidério
E minha pele um céu sem estrelas ou dias.

E para aonde vou, estrada de nostalgia,
Beijo amargo que alberguei, cinamomo frouxo
Crisântemo orvalhado de ceramias
Asco e cripta no cheiro plúmeo e fosco.

Tenho cartas cinzas, livros de código,
Passagens só de ida.

Adorno fantasma no meu caderno fechado
Dos poemas que me enojei
Dos versos que não suporto
Ao soco de urzes
Nos meus arquipélagos de misantropia.

Música ferida



Música ferida

De meu contorno

Dor do asco

Em teu corpo.

Música ferida

Dos pátios

Pedaços estáticos

Flácido bojo.

Fende, febre rude

A dardejar

Um compasso

Primeiro laço

A despedaçar.

Concha marfínea

Nota estelar

Cai de minha boca

Fendida

A sangrar.

Música ferida

De meu contorno

Doença emocional

Exílio de ouro.

Canto cinza.



Canto cinza.

Joguei pedras no lago
Vi meus olhos translúcidos
Através de minha gaiola, um ar entrecortado,
Olhar de restos, impressões contidas na cinza...

Se viveres livre, atormentado de anseios frios
Quero que olhe no rodamoinho de minhas mãos
Esmague as frutas para a minha manhã
E sirva pétalas para um jantar sólido.

Olhar de passarinho roto...
Estão impregnadas de mensagens
As tuas mãos com o cheiro
de lembranças...
Deixe a porta e a água, e as sementes...

Eu vi apenas ressurgir no reflexo das águas
Sobre as ondas de leve impacto de minhas perdas
O teu rosto nanico.







Deslizam...


Induz a erro os olhos pelas vias de vários enigmas.
Ovídio.


Espelhos,vidros, náusea.

Flutuam sobre a tumba náufraga

Dedos de mulher não nascida

E os sonhos dos sonhos em fogo fátuo

Traçam rotas sem leme, ogivas mergulhando no mar

E o sal inoculando vespas e aranhas...


E dos versos ressonantes que fluem façanhas,

Delírios, mãos decepadas pela lua cantante

bocas roxas de beijos engolem o instante:


E os sinos dos rios no ambiente sonâmbulo

Espalham signos de poros no sonho ermo

Eu acordado pelas luzes virtuais do meu sono.


E não sabendo que as vagas negras são de pesadelo

Os meus passos perambulam como frios pomos

Entre jardins vicerais, azuladas conspirações

Deslizam sobre flores de lótus e cinamomos...