terça-feira, 20 de outubro de 2009

Bem vindos ao céu.


Bem vindos ao céu.
bailarinas de cinzas e torres decompostas!
mártires imolados e dengosa crianças do interior do Piauí.
sorris com olhos de fome e pregai os pregos de vossas cabeças!
entrem santos e humilhados.
comam na mão como cães.
beijeis o símbolo abjeto,
mastigueis o mistério preclaro.

Arco íris para os não nascidos.
maré vazante para a noite sonâmbula.
casulos e arcanos para idéia nobre.
Bem vindos ao céu!
mendigos, malfadados, taciturnos, prostitutas e leigos.
bem vindos ao plástico supermercado de abonações de pecados!
viva!
venham beijar os pés da mentira!
venham namorar o medo e a desolação!
venham capitalizar a morte!
eu quero vender os seus olhos!
tenho lençóis e tigres famintos!
tenho ampulhetas para o sono mais febril.
por que a morte já foi escancarada!
já rodopiaste com tua alma em chamas através do céu!
Acaso os anjos tragaram os restos de tua caveira?

Não existe motivação para a poesia.

[quadro de René Magritte]

Não existe motivação para a poesia.
Ao menos a minha, é opaca.
Influenciada pela embriaguez da lua.
Ou a chegada da madrugada.

Por quê, ora ou outra, mastigado
Por uma débil alegria
Estou a catar os copos
Do último festim, feito sangria.

E esse balão morno, invólucro
De ventania
Come o vesgo óbolo
Para reinar no vicio, na putaria;
Festejar um escândalo nascente
Do poeta e seu Deus um simulacro.

Não, só o que bebo, e recaio,
Como um trovão, apartado da luz,
Como um beijo de fim, sem laço,
Não escrevi com sangue, disfarço,
A cantilena do que sou.

Fiquem com as ruas, calçadas, postes;
Com tudo o que quiserem
Motivação é merda, estro é desdém
Poesia é mentira.

O lago Verde de Rimbaud




Depositarei ouro lodo despido
Em meus cadarços de casa inundada.
tonéis do sonhos andando
Meu corpo afogado de morte
Procriando ecos de uma elegia muda
Tumba de séculos procriando luas
Na paixão adornada de cinza e tácito voar.

Um Ser.

estranho... mas entre eles havia
um ser a quem todos os poetas estendiam
suas nuvens e telhas como mulheres nuas
um ser a quem foi dado a capacidade
de dar capacidade aos poetas de nomearem as coisas
e nele, estão selados todos os objetos e poesias
do porvir, e a própria chave do esquecimento
[a chave que amortece a tua chegada ao mundo, a tua chegada;
[a tua chegada cheia de silvos e pegadas de vento,
O vento esquecido que levitarás quando escreveres
Os primeiros poemas...

A terceira filha do senhor Almir.

A terceira filha do senhor Almir.

Todos os dias ela me vê comprando pão.
Embora eu desminta o seu olhar,
Tenho ânsia de beijar-lhe o sexo.
Tenho paixões destinadas ao sonho
E a imbecilidade da cerveja tranqüila
Que nossos filhos beiçudos cantarão.
Mas ela, inocente como uma mula, não
Sabe a cláusula da desdita. E eu serviria
Seu pai se não fosse a minha inaptidão para coisas
Do comércio...
Serviria sim, sete anos, até mais, até menos...

Todos os dias ela me vê comprando pão.
Embora eu desminta o seu olhar,
Serviria sim, sete anos, até mais, até menos...

Poema para uma noite de março

O amor que ficou em mim

Penumbra, fibra de ósculo

Nervura plúmea e vaga dos teus olhos

A matizar a dor da chuva sobre

A frei Serafim.


E a trafegar sobre a ponte

Faltam luzes em algumas casas

Lâmpadas distorcidas, cor de pérolas

Linhas irrefletidas como quimeras...


O amor que ficou em mim

Como baldes de diamantes, livros de ouro

De algum poeta-Deus

Resgatou

Em uma noite qualquer

A lembrança esguia do teu nome

E nada mais...


Dança do Labirinto de chumbo

Dança do Labirinto de chumbo

{as andanças do poeta ainda vivo}

Thymochenko C.